15.3.07

EDITORIAL

Não há muito tempo e ainda não mencionei porque o Jornal do Bairro, nesta primeira fase é um quinzenário, não se proporcionando por vezes uma crítica mais actualizada de factos que de uma forma ou de outra fazem mexer, neste caso, com a sensibilidade do ser humano. Infelizmente também não é para todos…

Quero com isto dizer que não há muito tempo foi transmitido na agora RTP 2, em horário nobre, tipo hora do almoço num fim-de-semana, um programa que se chama “Coutos e Coutadas” criado por algum cérebro da nossa televisão estatal - paga por todos nós e também pelos pais das criancinhas que viram o programa.

Para quem não viu, foi assim: estavam uns energúmenos, atrás de uns taipais forrados a verde - não percebi se foram feitos, se os mandaram fazer ou se são comprados mesmo assim - no alto de uma arriba (pedaço de terra quando o mar acaba), armados com espingardas caçadeiras a rirem-se muito ao ver chegar a terra um bando de belíssimos patos selvagens que tinham feito alguns milhares de quilómetros voando por cima do oceano no seu sublime esplendor instintivo de ave migratória, procurando lugares quentes para nidificar.

Foi então que os animais que estavam em terra atrás dos tapumes - devia ser para os patos não os verem - começaram a disparar e a matar os patos que vinham a chegar e enquanto o faziam divertiam-se muito. Disseram, por exemplo, “aquele já morreu” quando o belo animal deixou de bater as asas em pleno voo. Depois de caírem com os chumbos cravados nas asas eram trucidados pelas mãos criminosas de gente que nem o ar que respira merece e que se rebolava no chão para os apanhar. Já no final da carnificina, cada um dos assassinos trazia à cintura talvez mais de uma dezena de belos animais pendurados e continuavam a rir-se muito, se calhar era porque lá estava a televisão e eles coitados também gostam de aparecer, como outros que eles já viram no pequeno ecrã… Que vergonha para o ser humano!

Pois fiquem a saber que aqueles que matam só têm a aprender com o fabuloso mundo animal, mas é o que há, não há nada a fazer. Também quero aproveitar para agradecer ao responsável do programa em questão e ao director do canal por me ter dado a conhecer este didáctico programa difundido à hora do almoço, num fim-de-semana…A todos um muito obrigado!

Augusto da Fonseca

Cinema Paris

UM EX-LÍBRIS DECADENTE

Considerado “o amplo, o mais confortável e de maior lotação de todos os cinemas em Lisboa" em dias de inauguração, o Cinema Paris viveu tempos de ouro, acolheu famílias, amigos e namoricos de todas as classes sociais, serviu de palco a histórias de amor, de guerra, de ficção e de mudez mas pouco a pouco ele próprio se calou e as vozes que o defendiam tornaram-se surdas para quem ainda pode fazer qualquer coisa para o salvar.
Por sofrer perigo de derrocada deu-se ordem para a sua demolição mas como que tocado por uma varinha de condão milagrosa, logo se suspendeu essa ideia.
Hoje, o Cinema continua fiel a si próprio, mantém o “Paris” em néon, a cor amarelada, acolhe não gente mas pombos e gatos e o filme de “suspense” mantém os seus espectadores agarrados às cadeiras: “o que é que vai sair daqui”?

Inserido na área de protecção da Basílica da Estrela, na rua Domingos Sequeira, no eixo Estrela-Campo de Ourique, o Cinema Paris encontra-se em avançado estado de degradação, a sala de cinema está devoluta e emparedada há cerca de 20 anos e a infra-estrutura sofre perigo de derrocada.

Uma vistoria realizada por técnicos da autarquia, em Setembro de 2002, determinou a urgência de demolição do imóvel face ao risco que o mesmo constituía para a segurança dos cidadãos, havendo o risco de aluimento de tectos e de desagregação da fachada.

No dia 7 de Janeiro de 2003, a notícia fez manchete em diversos jornais nacionais, o proprietário Martins Freitas não mostrava interesse em reabilitar o imóvel e por isso foi intimado pela Câmara Municipal de Lisboa a proceder à sua derribada. Dois dias depois, pareceres do Instituto Português do Património Arquitectónico – IPPAR, desaconselharam a demolição total do imóvel, apontando como preferível a sua manutenção, ainda que parcial, “garantindo a coerência urbana do conjunto envolvente ao monumento nacional da Basílica da Estrela”.

Santana Lopes, que era na altura presidente da CML, optou por suspender a demolição “porque optou por conservar o imóvel para um espaço cultural”, explicou Marta Moreira, assessora do gabinete do presidente nas áreas de Planeamento, Urbanismo e Reabilitação ao Jornal do Bairro.

Negociações em “águas de bacalhau”

Desde que a ordem de demolição foi suspensa, muito foi prometido fazer para garantir a preservação do espaço.

Falou-se na possibilidade de chegar a um acordo com o proprietário através de permuta com outros terrenos, sendo que a troca poderia ser feita por um terreno Municipal junto ao quartel dos Bombeiros de Campo de Ourique.

Sugeriu-se que o Município estiva interessado em recuperar o edifício e convertê-lo num teatro ou num hotel.

Salientou-se a existência de um grupo artístico do Norte interessado na sua exploração.

Apesar de tudo o que foi dito, “qualquer solução para o local deverá passar pela sua reabilitação enquanto espaço cultural” e isso não deverá estar para breve, pois ao contrário dos rios de tinta impressa, “a CML nunca chegou a acordo com os proprietários em relação a uma permuta”, declarou Marta Moreira.

O impasse de anos na negociação entre os proprietários e a autarquia ameaça a segurança das pessoas e bens e garantia há apenas uma: a de que o Paris caiu no esquecimento das pessoas pouco depois do 25 de Abril e a contestação só surgiu na última década, altura em que a degradação do espaço se tornou mais notória.

O Cinema Paris foi inaugurado a 15 de Maio de 1931 pelo empresário Vítor A. da Cunha Rosa mas cerca de quatro décadas depois, já a casa de espectáculos entrava em declínio, acabando por fechar. Foi já abandonado que o Cinema Paris serviu de cenário para o filme "Lisbon Story" de Wim Wenders, em 1994.

Mónica Almeida

O Paris da Minha Infância

Comecei a frequentar o Cinema Paris era ainda uma criança de colo. Não se espante o amigo leitor porque, naquele tempo – anos 40 do século passado – não existiam escalões etários para se frequentar salas de espectáculo. Isto dava origem a situações insólitas e hilariantes: bebés a interromperem o atento silêncio dos espectadores com o seu choro convulsivo e a provocarem intermináveis rios de xixi a correrem por entre as cadeiras da plateia…

Diariamente, decorriam duas sessões: a “matinée”, às 15 h e a “soirée” às 21h, horário mais do que conveniente para servir de complemento a uma boa (ou menos boa…) refeição. Constavam as sessões de dois filmes, um jornal de actualidades e uma curta-metragem de desenhos animados, ou seja, um tanto programa para todos os gostos e todas as carteiras.

O Paris estava programado para prover às prementes necessidades económicas da população do Bairro. As duas primeiras filas da plateia custavam apenas 2$00 (dois escudos); depois existiam as 1ª. e 2ª. plateias e a plateia reservada, além dos 1º. e 2º. Balcões, camarotes e frisas. Existiam, também, umas colunas, plantadas em plena plateia, a suster o balcão e a impedir a cabal visão do ecrã por parte dos “desgraçados” que calhassem atrás das colunas…

O Cinema tinha um óptimo palco, onde se realizavam programas de variedades, alguns transmitidos pela Rádio. Recordo-me da “Hora do Zeca”, em que actuavam dois ilusionistas – pai e filho – vestidos de mandarim chinês, com rabicho e tudo… o pai chamava-se Octávio de Matos (não, não é desse…), o filho era Rogério, mas, mais tarde, adoptaria o mesmo nome do pai, para enveredar por uma longa carreira teatral, ainda hoje existente.

No pátio exterior, ao ar livre, o Eduardo dos Livros vendia, a preços quase simbólicos, livrinhos de anedotas, bandas desenhadas, jornais juvenis para entreter o espectador, durante os intervalos da projecção. Esses intervalos – dois ou três? – eram aproveitados para se frequentar os dois bares – plateia e balcão. Junto ao balcão, estava instalada uma bela sala de convívio – o “foyer” – que se transformava em salão de baile, nas intermináveis noites de Carnaval. Aliás, no Carnaval, toda a plateia se convertia numa imensa sala de baile, a rivalizar com sua congénere, mais selecta, do balcão. “Luz, Cor & Alegria” era o “slogan”, e os bailes eram abrilhantados por “2 – Conjuntos Musicais - 2” e proporcionavam “um esmerado serviço de bufete”.

Nos intervalos da projecção, quem não queria sair do seu lugar para beber ou comer algo nos bares, podia “aviar-se”, pois um pequeno vendedor (não havia leis contra o trabalho infantil…) percorria as filas, vendendo rebuçados, chocolates, pastilhas elásticas, guloseimas diversas e… copos de água (vendida, pois claro! a dois tostões o copo).

O Paris e os outros cinemas do Bairro (e adjacências) foram testemunhas da minha infância e adolescência, da irreverência de jovens, postos na rua (por indecente e má figura) por agentes da Autoridade, devidamente fardados e armados. Também assistiram à turbulência de um povo bairrista, pródigo em “bocas” que oscilavam entre o humorístico e o obsceno.

Como fundo sonoro, ouviam-se sussurros que chegavam a ser incómodos e provocavam os “shiiiu” irados dos espectadores: tratava-se da leitura, em voz baixa mas audível, das legendas dos filmes, feita pelos acompanhantes dos inúmeros analfabetos existentes no meu Bairro (e em todo o meu país).

Fernando J. Almeida